Tudo começou com Raimundo Irineu Serra, mais conhecido hoje em dia pelos adeptos do Santo Daime como Mestre Irineu. Maranhense e neto de escravos, ele rumou para o Acre em meados da década de 1910, onde trabalhou como seringueiro e guarda de fronteira. Nesta última função, auxiliando na demarcação da fronteira do recém-criado estado do Acre, Irineu conheceu na fronteira com o Peru o chá ayahuasca – fato que mudaria sua vida para sempre e o tornaria, anos depois, líder de uma religião que se expandiu do Acre para o resto do Brasil e do mundo.

“Há uma série de relatos a esse respeito, mas todos têm em comum o fato de que o Mestre Irineu, cansado do sofrimento e da labuta vivida ao longo de sua vida, decidiu ir a um ritual ayahuasqueiro, que não estava inserido em um contexto cristão e era até mesmo traduzido por algumas pessoas da época como bruxaria. E foi então, ao consagrar o chá, que ele teve uma visão com uma série de cruzes, fato que fez ele perceber que aquilo não teria relação com magia negra e bruxaria, mas sim com algo cristão”, explica Glauber Loures, sociólogo especializado em religiões adeptas da ayahuasca.

Em uma noite de lua cheia, o Mestre Irineu teve uma visão que é tida como um divisor de águas em sua história e fato primordial para a concepção da nova doutrina. “Ele teve uma revelação espiritual com a Virgem da Conceição, que se apresentou como um ser feminino que foi visto sentado sobre a lua e, num primeiro momento, foi referida como Clara”, relata Glauber.

De acordo com Maria Araújo, pesquisadora de temas relacionados a religião do Santo Daime, durante aquele contato com Clara, Mestre Irineu pensou estar diante de uma aparição demoníaca, mas viu que aquela entidade era muito bela e luminosa. “Aquela entidade perguntou para ele ‘Você acha que eu sou um Satanás?’ e ele respondeu ‘Não, eu acho que a senhora é uma Deusa Universal’, fato que consagrou o início do contato dele com a Clara”, conta. Clara então revelou que tinha ensinamentos para passar ao Mestre Irineu, mas que ele deveria passar oito dias em jejum na floresta.

Foi após esse período que o recém-nomeado mestre recebeu os ensinamentos da Virgem da Conceição que dariam início a estruturação de uma doutrina espiritual que uniria o cristianismo com uma tradição indígena. Foi neste momento também que surgiu o primeiro hino, Lua Branca, que deu início a uma tradição musical muito forte dentro dos rituais do Santo Daime, que hoje pode ser definido como uma doutrina musical. Como não há uma escritura, como a Bíblia ou o Alcorão, são os hinários que, ao serem cantados nos trabalhos daimistas, passam adiante os ensinamentos da crença presentes nas letras.

Os primeiros encontros com a liderança de Irineu Serra aconteceram nos anos 30, década em que ele instituiu o nome de Santo Daime para aquele grupo, que vem do rogativo dai-me, de “dai-me força, dai-me amor, dai-me luz, dai-me conhecimento”. Na época, ele também incorporou alguns conceitos para os encontros, como o uso de fardas – espécie de vestimenta para os adeptos.

Mas, como sinaliza a pesquisadora Maria Araújo, há de se considerar que a nova religião não surgiu de uma hora para a outra. “O Santo Daime começou a virar uma nova religião na medida que começou a se estruturar uma hierarquia e uma estrutura ritual. Toda a fundação de religião é um processo, não é uma coisa pronta. Foram de 40 a 50 anos de dedicação do Mestre Irineu para a criação do Santo Daime, foram décadas transformando e estruturando melhor essa nova religião”.

Foi em 1945 que surgiu o primeiro espaço religioso sob o comando do Mestre Irineu, cuja fundação tinha o único propósito de reunir seus seguidores. Era o denominado Alto da Santa Cruz, nos arredores de Rio Branco. “Para abreviar as pessoas chamavam de ‘Alto Santo’ e assim foi ficando. Ele construiu um barracão coberto de palha para as reuniões de uma organização que não era registrada em cartório, nem tinha diretoria ou qualquer corpo formal de associados. Era chamada de ‘Centro Livre’. Em 1969, o local foi registrado como uma entidade religiosa, o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal”, conta Antônio Alves, fardado na comunidade Alto Santo desde 1984 e, atualmente, representante da Madrinha Peregrina, viúva do Mestre Irineu e líder da Alto Santo, em reuniões, congressos e audiências.

O posicionamento da Igreja Católica sobre o Santo Daime denominar-se uma “doutrina cristã”

Os adeptos do Santo Daime rezam Ave-Maria, Pai-Nosso e acreditam em Jesus. Sua fundação teve total relação com a aparição de Nossa Senhora da Conceição, com o nome de Clara. Mas a Igreja Católica contesta. “O Santo Daime é um grupo que mistura elementos de algumas religiões. Então ele não é um grupo eminentemente cristão, embora possua alguns destes elementos em sua composição”, explica Geraldo de Almeida, padre e docente em teologia sistemática e pastoral.

Sobre a aparição de Clara, ele avalia que o uso da ayahuasca pode ser considerado um complicador frente a um possível reconhecimento da visão pela Igreja Católica. “Em qualquer aparição que seja, analisa-se em primeiro lugar o conteúdo revelado, que precisa ser consistente com o que se crê na Igreja. Algumas visões podem ser frutos de alguns problemas psiquiátricos, alucinações. Neste caso, temos um complicador quando a visão introduz o uso de um chá como elemento chave. E como fica a nossa principal e única bebida espiritual, o vinho consagrado que é o próprio sangue de Cristo?”, questiona.

Mestre Irineu e grupo na Igreja do Alto Santo, sem data definida (ESSA É A PRMEIRA IGREJA)
``Podemos dizer que, para os adeptos do Santo Daime, ele não é um alucinógeno de forma alguma, ele é um sacramento. Assim como o vinho é uma representação de Cristo para os católicos, para os daimistas o Daime é um ser divino, um ser dotado de consciência``

Glauber Loures

Sociólogo especializado em religiões adeptas da ayahuasca

LINHA DO TEMPO

1915

Primeiro contato do Mestre Irineu com a ayahuasca

1983

Fundação do primeiro centro religioso fora do Acre, a Céu do Mar, no Rio de Janeiro

1930

Primeiro trabalho da doutrina. Nessa mesma época foi instituído o nome de Santo Daime

1985

Início do processo de legalização da ayahuasca

1936

Introdução do bailado e da primeira farda

1988

O Daime chega aos EUA e a alguns países da Europa

1945

Inauguração do primeiro centro da doutrina, o Alto Santo

1990

Falecimento do Padrinho Sebastião

1946

Fundação da Barquinha, primeira ramificação do Santo Daime

1992

Construção da primeira igreja daimista na Holanda

1971

Falecimento do Mestre Irineu, com 79 anos de vida

1994

Criação de mais uma vertente, o Centro Eclético Flor do Lótus Iluminado

1974

Padrinho Sebastião deixa de frequentar a Alto Santo e funda sua própria vertente

2010

Publicação da regulamentação da ayahuasca como sacramento religioso no Diário Oficial da União

Do Acre para o Brasil e o mundo

Hoje o Santo Daime é conhecido por todo o Brasil, com centros religiosos espalhados por todos os estados. Nos anos 80 virou até “moda” com artistas e intelectuais que participavam e divulgavam a doutrina. Hoje, mais do que no Brasil, o Daime está presente em vários lugares do mundo.

Para o sociólogo Glauber, foi a partir do falecimento do Mestre Irineu e da criação de uma nova vertente, comandada pelo Padrinho Sebastião, que o Santo Daime começou a se expandir. “Depois do falecimento do Mestre Irineu, em 1971, começa a vir uma disputa pela sua sucessão, que culmina na separação do Alto Santo em 1974, onde o Padrinho Sebastião, o seguidor mais recente do Mestre Irineu, que passou a segui-lo em meados da década de 60, passa a constituir o seu próprio grupo na Colônia Cinco Mil, também do Acre. Já Peregrina Gomes Serra, viúva do Mestre Irineu, junto com sua família, passa a presidir o grupo Alto Santo”, explica.

“O Padrinho Sebastião abriu o rito para muitas pessoas. Ele abriu sua própria igreja, a Colônia Cinco Mil, que recebia a todos. Com isso, a notícia foi se espalhando e muitas pessoas de terras longes vieram e foram levando o Daime para suas terras”, conta Marco Gracie Imperial, daimista desde os anos 70 e, na época, seguidor do Padrinho Sebastião.

Com a criação da Colônia Cinco Mil, Padrinho Sebastião começou a abrir os trabalhos para todos, principalmente hippies, mochileiros, pessoas ligadas à contracultura, pesquisadores e curiosos. “Ele também incorporou todas as plantas sagradas nos ritos que ele desenvolveu. Dizia que se a ayahuasca já era tão poderosa, imagine o restante da natureza que Deus tinha deixado…”, continua Marco Imperial.

Foi aí que o Daime começou a se espalhar pelo Brasil, alcançando o status de uma doutrina de dimensões nacionais nos anos 80, quando se tornou uma organização com dezenas de filiais. Neste ponto, já começaram a surgir algumas novas vertentes. Hoje, dentre elas, destacam-se o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, o CICLU – Alto Santo, primeiro centro religioso e, naturalmente, primeira vertente, fundada por Raimundo Irineu Serra; a vertente do Padrinho Sebastião, a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo (ICEFLU); a Barquinha, de Daniel Pereira de Mota; e o Centro Eclético Flor do Lótus Iluminado (CEFLI), criada por Luiz Mendes.

Para Antônio Alves, fardado na Alto Santo desde 1984, há algumas diferenças entre o primeiro centro, fundado pelo próprio Mestre Irineu, e as novas vertentes. “São diversas diferenças ritualísticas e na interpretação da doutrina. O Alto Santo não tem filiais, nem estimula a expansão do Daime ou a fundação de novos centros. Não tem outros padrinhos ou madrinhas além do Mestre Irineu e da Madrinha Peregrina. Mas a principal divergência é com relação ao uso de outras substâncias – nos rituais religiosos ou fora dele. No Alto Santo usa-se unicamente o Daime”, relata.

Além disso, Antônio explica que o Alto Santo não permite que os membros fardados participem dos rituais de outros centros ou igrejas e que visitantes não-fardados entrem nas filas e participem do bailado no cântico dos hinários. “No Alto Santo, os visitantes ficam sentados, só podem entrar nas fileiras os associados regulares da casa e com uniforme completo”.

VERTENTES DO SANTO DAIME

Em 1982, um dos seguidores do Padrinho Sebastião, Paulo Roberto, abriu a primeira igreja fora do Acre. Ao lado de Marco Imperial, foi fundado o Céu do Mar, no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro, fato crucial para a expansão ainda maior da doutrina. “Eu pedi ao Padrinho Sebastião a autorização dele para abrir com o Paulo Roberto a primeira igreja e ele nos autorizou. Eu tinha 7 pessoas e o Paulo 14. Assim abrimos o Céu do Mar”, conta Marco Imperial, que hoje está à frente da igreja Rainha do Mar, também no Rio de Janeiro.

Nessa mesma década, segundo Glauber, diversos artistas, como Maitê Proença, Ney Matogrosso e Augusto Strazzer, começaram a frequentar rituais do Daime. “Depois, principalmente nos anos 90, começa a expansão também muito pronunciada para outros países, para além do continente da América Latina. Aí o Daime chega na Europa, Japão, Estados Unidos, Canadá…”, explica.

Mas nem tudo sempre foi fácil: por ser uma doutrina que misturava conceitos cristãos com indígenas, a perseguição religiosa foi imensa. “O Mestre Irineu sofreu muitas perseguições e rotulações, principalmente por ser negro e ser tachado como macumbeiro. Ele chegou até mesmo a ser preso”, continua Glauber. Nos anos 70, de acordo com o Centro de Documentação e Memória da Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo (ICEFLU), por conta da chamada guerra às drogas e do crescimento de adeptos da doutrina, “Dirigentes do Daime enterravam o chá e tomavam escondido, diante de operações policiais de repressão aos cultos”. Alguns anos depois, por ordens do Ministério da Justiça, que formou-se a primeira comissão interdisciplinar com o objetivo de estudar o uso religioso do Santo Daime.

Chá sacramental composto por folhas nativas amazônicas de cor marrom e aparência viscosa, a ayahuasca tem o poder de ativar regiões de imaginação e expansão de consciência. De origem Inca, o chá ayahuasca possui relatos de uso há pelo menos 3 mil anos pelos índios e tem seu uso ligado a diversas religiões.

Segundo o historiador Marcos Nobrega, há antigos relatos de uso da ayahuasca como ferramenta para cura espiritual de índios em países como Equador, Brasil e Peru. “O uso do chá, de um modo geral, era para o entendimento espiritual, arma contra os segredos do inconsciente e libertação do espírito”, comenta.

O termo ayahuasca significa “cipó dos espíritos”, mas quando usado em rituais xamânicos ou dentro de doutrinas religiosas, pode ganhar outros nomes, como é o caso da religião Santo Daime, que após realizar o ritual de consagração por alguém de cargo intitulado “padrinho” passa a se chamar “Daime”. Na cidade de Sorocaba, a Igreja Céu Sagrado realiza a colheita dos ingredientes para a mistura três vezes ao ano.

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“Os índios fazem uso do chá para alguns rituais religiosos ou então porque simplesmente acreditam que ao ingerirem a bebida estão mais próximos dos ensinamentos de Deus”

Marcos Nobrega

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REGULAMENTAÇÃO:
O CAMINHO ATÉ A ACEITAÇÃO DA AYAHUASCA

Há uma grande polêmica acerca da regulamentação da ayahuasca, afinal, o chá já foi proibido e considerado um narcótico no Brasil na década de 80, isso porque as folhas de uma das plantas, o arbusto psychotria viridis, conhecido como chacrona, entrou para a lista de proscritos do Conselho Federal de Entorpecentes, hoje conhecida como Secretaria Nacional de Política sobre Drogas, por ter em sua composição a DMT (dimetiltriptamina), substância encontrada em entorpecentes como o LSD.

A ayahuasca passou por um longo processo judicial até ser reconhecida apenas religiosamente, como explica o advogado Leonardo Sá. “O chá era utilizado normalmente por diversas comunidades religiosas sem qualquer perseguição penal. Com a inclusão de uma das plantas que compõem a ayahuasca na lista de substâncias proscritas, uma entidade religiosa que também é do segmento do Santo Daime, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, pediu através de uma petição assinada pelo advogado Luís Felipe Belmonte dos Santos, a revisão da mencionada inclusão”, conclui.

A partir do requerimento da UDV, foi instaurado um processo pelo extinto CONFEN que designou um grupo de trabalho para análise da questão de forma multidisciplinar. Em reunião plenária, de 31 de janeiro de 1986, foi aprovado por decisão unânime, que fosse suspensa, provisoriamente, a inclusão do cipó jagube na lista de drogas proscritas.

Embora o chá ayahuasca tenha substâncias psicoativas, tanto ele quanto as plantas que o compõe continuam excluídas da lista de substâncias proscritas. Foi constatado o uso religioso e cultural por diversas comunidades da sociedade brasileira. O estudo foi realizado de forma multidisciplinar com avaliações sociológica, antropológica, médica, química e de saúde pública.

Mesmo que o uso da ayahuasca seja amplamente permitido, há algumas recomendações. “É preciso que menores de idade tenham acompanhamento e autorização dos pais para participação em cultos, é preciso a realização de entrevista médica para os novos participantes e algumas orientações para gestantes, porém não há proibição e sim recomendações”, orienta o advogado Leonardo Sá.

Segundo o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas as questões relacionadas ao controle de adeptos e como evitar exceder os limites legais do consumo para evitar problemas de fiscalizações são de exclusiva responsabilidade de cada entidade religiosa. Já a fiscalização é de responsabilidade da Polícia Federal, que inclusive pode receber denúncias de terceiros caso haja suspeita de irregularidade na utilização do chá ayahuasca.

Marcelo Marques, praticante de xamanismo e condutor de cerimônias espirituais, explica que o uso do Daime pode ser expandido para além de religiões. “O próximo passo é ampliar a legislação para que ela possa ser usada legalmente em um contexto terapêutico e adentrar as práticas integrativas e complementares de saúde”, finaliza.

Casos Polêmicos

Em Agosto de 2016, o engenheiro e pesquisador Eduardo Chianca foi detido no aeroporto de Moscou por transportar em sua bagagem de mão quatro garrafas de ayahuasca. Segundo as leis internacionais, o uso do chá ayahuasca é proibido por conter DMT. Eduardo estava em viagem a pedido de um estudioso e faria palestras na Ucrânia, Rússia e Espanha. O pesquisador foi preso e condenado a 6 anos de prisão na Rússia.

No ano de 2010, o cartunista e jornalista Glauco Villas Boas foi morto a tiros em sua residência, junto com seu filho, por um frequentador da Igreja de que era fundador, a Céu de Maria, vertente do Santo Daime localizada na cidade de Osasco, São Paulo. O atirador, Carlos Eduardo Nunes, estava afastado do uso do chá, pois enfrentava um tratamento contra as drogas e foi diagnosticado com esquizofrenia. Cadu, como era conhecido, foi morto em 2016, na penitenciaria onde cumpria pena.

Deise Faria Ferreira era técnica em enfermagem na cidade de Goiânia e frequentava o Santo Daime fazia três meses. Após começar a seguir a doutrina, teria começado a apresentar alterações de humor e personalidade. No dia 11 de julho de 2015, Deise desapareceu após um ritual da religião. Duas pessoas foram presas, Antônio David dos Santos, que teria ido ao local com ela e entregue o carro da vítima à família no dia seguinte, e Claudio Pereira Leite, administrador do espaço onde Deise fazia uso da ayahuasca. A delegacia responsável pela investigação não divulgou o motivo pelo qual os dois foram autuados como responsáveis. Desde o ocorrido o corpo de Deise não foi encontrado e mesmo não possuindo um atestado de óbito, o inquérito policial concluiu que a enfermeira está morta.

Rian Britto, neto de Chico Anysio, desapareceu no dia 23 de janeiro de 2016 no Rio de Janeiro. Após dias de buscas, o corpo do rapaz foi encontrado. Ele foi vítima de afogamento em uma praia da cidade. Segundo familiares, o jovem passou a apresentar algumas mudanças de comportamento após a ingestão do chá ayahuasca em um centro xamânico dois anos antes de sua morte. Seu pai, o ator Nizo Neto, afirmou aos veículos de comunicação que tem certeza de que a morte de seu filho está associada a essa mudança de personalidade.

A AYAHUASCA COMO SUBSTÂNCIA

Da perspectiva bioquímica, fisiológica e farmacológica, há dois ingredientes de maior relevância na ayahuasca, como afirma o biólogo e professor da rede estadual de São Paulo Wéliton Ribeiro Rodrigues Mota. “A primeira substância é fornecida pela folha chacrona, o N,Ndimetiltriptamina, conhecida como DMT. Trata-se de uma substância alucinógena conhecida há algum tempo pela comunidade científica”.

O segundo ingrediente, este produzido pelo cipó jagube, é um grupo de substâncias classificadas como betacarbolinas, como a harmalina, a hamina e a tetrahidroarmina. Segundo Wélliton, estas substâncias são classificadas como inibidoras de uma enzima denominada monoaminoxidase que possui a função de inutilizar a DMT.

Ou seja, um ingrediente necessita do outro para que o efeito esperado dê certo no corpo e na mente de quem utiliza a ayahuasca. “Quando presente em nosso organismo, a DMT, encontrada na chacrona e em grandes quantidades na ayahuasca, é ‘anulado’ por uma enzima presente naturalmente em nosso corpo. Porém quando as substâncias do cipó jagube, usada para fazer o ayahuasca, estão presentes em nosso organismo, elas anulam instantaneamente o poder das enzimas naturais de barrar o efeito da DMT, fazendo com que ele aja em nosso corpo”.

Além disso, a DMT pode causar alucinações, mas, segundo a psicóloga Maria Araújo, o chá é considerado enteógeno pelos adeptos, o que significa que ele abre as portas da percepção espiritualizada da mente humana. “Ele leva o sujeito a mergulhar no seu psiquismo, então nesse sentido a pessoa não está alucinando, não está saindo de si, ela está mergulhando em um aspecto muito profundo do seu próprio ser”, defende.

Apesar de ser classificado como enteógeno, a ayahuasca mantém a pessoa consciente do que está acontecendo ao seu redor. Foi o que aconteceu com a corretora de imóveis Adriana Kazue. “Eu tomei o chá num ritual xamânico e comecei a ver um sapo, que, na verdade, era uma pedra. Mas na hora, mesmo vendo outra coisa, sabia que aquilo não era real, por ter consciência que naquele lugar havia uma pedra… É uma sensação difícil de explicar, parece que você está alucinando, mas na verdade não está”, relata.

O doutor em farmacologia Rafael Guimarães dos Santos alerta: “Em algumas pessoas a experiência pode causar estranhamento e ansiedade, que são geralmente temporários, quem tem um histórico pessoal e familiar de psicoses deve evitar ingerir, já que o chá pode aumentar os sintomas ou desencadear transtornos nessas pessoas”.

Os efeitos da ayahuasca no corpo e na mente

“A ayahuasca aumenta as respostas neurológicas causadas pela DMT e apesar da substância estar presente em drogas psicoativas que desenvolvem o vício em quem faz uso, o chá tem seu efeito por cerca de uma ou duas horas, não causando dependência”, explica o neurologista Tiago Nakada.

Segundo o biólogo Wéliton Ribeiro Rodrigues Mota, em um contexto adequado, na maior parte das pessoas o chá ayahuasca pode induzir introspecção, calma, bem-estar, alegria, euforia e alterações sensoriais, como por exemplo, aumento do brilho das cores e visão de formas geométricas.

“A ânsia de vômito e a diarreia são as reações mais frequentes devido ao fato de que o líquido do chá ayahuasca é algo novo para o organismo”, explica o médico Marcio Rodrigues.

Em casos de esquizofrenia a ayahuasca pode aumentar os sintomas psicóticos de pacientes diagnosticados, agravando ainda mais seus sintomas da doença. “Quando você ingere a ayahuasca, é como se colocássemos uma lupa de percepção e sensibilidade, o que pode ser extremamente perigoso para alguém que possui transtornos esquizofrênicos”, explica a psicóloga Lillian Prado.

Por aumentar levemente a frequência cardíaca e a pressão arterial, pessoas com problemas no coração devem ser cautelosas, assim como pessoas com transtornos neuropsiquiátricos, como epilepsia e demências. “O uso simultâneo da ayahuasca com medicamentos em geral e com remédios psiquiátricos, em particular antidepressivos, deve ser evitado pela possibilidade de interações medicamentosas”, adverte o doutor em farmacologia Rafael Guimarães dos Santos.

Para o publicitário Reginaldo Justino, sua experiência com a ayahuasca não teve o resultado que desejava. “Compareci a três rituais de um centro xamânico que fazia uso da ayahuasca, e as únicas reações que tive foram fortes náuseas e dores de cabeça, sem nenhum efeito… Confesso que fui descrente quanto às maravilhas que o chá oferecia, mas nunca achei que sairia com 0% de resultado”. Para a psicóloga Lilian Prado, a descrença do publicitário pode ter sido fator importante para o bloqueio do resultado. “Os efeitos do chá perante ao cérebro são inegáveis, por isso a tendência de um possível ‘boicote’ do próprio corpo quanto ao efeito é extremamente possível, já que estamos falando de uma área ligada ao cérebro”.

As sensações variam de organismo para organismo e apesar da ayahuasca, na maioria dos relatos, causar efeitos parecidos, para o produtor de vídeo Bruno Veiga Valentim, o chá trouxe visões de um “outro eu”. “Eu encontrei no chá todas as respostas que o meu corpo pedia e procurava. Depois de obter experiências e estudar tudo o que o chá é capaz de realizar, acredito fielmente que a bebida cria um efeito não só na carne, mas também no espírito”.

A estudante de turismo Sara Campos conta que o chá em seu organismo fez efeito durante sete dias e que, durante todo esse tempo, teve visões de momentos importantes de sua vida. “Eu consegui visualizar perfeitamente imagens de quando eu tinha dois ou três anos, aproximadamente, e foi uma experiência incrível”. Sobre as visões de Sara, a psicóloga Lilian afirma que não é possível perante à ciência. “As supostas imagens produzidas por Sara são frutos de uma imaginação e não memórias reais… Isso, infelizmente, não é possível”.

Hoje, há diversas vertentes de grupos religiosos que usam a ayahuasca, como também religiões orientais, neoxamanismo e holismo. Vale mencionar que há vertentes de outras religiões, como a umbanda, que também consomem a ayahuasca, denominando-se então, umbandaime. Porém, a vertente mais conhecida continua sendo o Santo Daime.

Em Sorocaba, interior de São Paulo, está localizada a maior igreja da doutrina do Santo Daime do Brasil e do mundo. O Céu Sagrado, abreviação para Centro Espiritual Unificado de Sanidade, Gratidão e Doação, fica em um sítio com uma área de 20 mil metros quadrados. O salão onde os trabalhos são realizados tem capacidade para cerca de 500 pessoas. O sítio conta com quadra esportiva, quiosques para lazer, salão de festas e um lago.

Seu fundador, Fernando Dini, conheceu o Santo Daime em Caxambu, Minas Gerais, em 1995. Tornou-se adepto da doutrina e a trouxe para Sorocaba no mesmo ano. No início, os trabalhos eram realizados em sua casa com cerca de seis pessoas. Com o rápido crescimento da doutrina na região, em 2010 Fernando Dini fundou o espaço em que hoje são realizados os trabalhos. O local é rodeado pelo verde, flores que exalam um cheiro agradável, árvores frutíferas, um gramado muito bem cuidado e com uma estrutura ampla e moderna.

Em 22 de abril de 2012, Fernando Dini morreu por conta de um AVC. Ele vivia seu melhor momento e estava no auge de sua carreira como líder religioso e empresário. Seu irmão Luciano Dini passou a presidir a igreja. “Antes de sua morte eu já estava coordenando o Céu Sagrado… Então, foi tudo muito natural”, revela. “Porém, foi um momento em que todos os fiéis ficaram chocados… Ninguém estava esperando, foi bem difícil compreender a partida dele”, completa.

Para acompanhar e participar dos trabalhos do Céu Sagrado, todos devem pagar o valor de R$ 50 em um caixa instalado na entrada do salão – é com essa verba, além de doações, que o Centro Espiritual se mantém. O estudioso Marco Gracie Imperial discorda da cobrança para participar do trabalho. “O Padrinho Sebastião tinha horror de quem cobrava. O Santo Daime é uma doutrina de caridade, se você cobra, está deixando de ser doutrina de caridade”. Marco afirma ter convivido com Padrinho Sebastião e afirma que Mestre Irineu também era contra a cobrança “Pedir é uma coisa, afinal o dinheiro é preciso. Mas quando se cobra, você se recusa a distribuir o Daime para quem não tem condições!”.

Sobre a cobrança para participar do trabalho do Céu Sagrado, Luciano Dini afirmou que despesas como o feitio do Daime, remuneração de funcionários, manutenção e contas em gerais precisam ser pagas mensalmente. “Muitas igrejas que seguem Padrinho Sebastião cobram pelo Daime sim… O que não pode acontecer é o enriquecimento do dirigente”, disse. “Mas aqui ninguém vai ficar sem tomar o Daime se não tiver dinheiro, a gente vai acolher, com certeza!”, afirmou.

Em 2014, Luciano Dini foi condecorado como Comendador pelo Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Mas enxerga como seu maior legado transformar a vida das pessoas por meio de trabalhos sociais realizados pelo Céu Sagrado. “Todo Natal fechamos a área kids de um shopping center aqui da cidade e levamos as crianças para lá. Ficam o dia inteiro brincando e depois vão comer um McDonald’s”, conta Luciano. Já com pessoas em situação de rua, o Céu Sagrado realiza uma ação, todos os domingos, há mais de vinte anos.

“Fui atrás do Santo Daime buscando um barato, mas morri. Foi assustador. Nasci de novo, reaprendi a falar, a andar... Deixei pra trás o cara que eu era. Graças ao Daime eu me formei e conheci minha esposa. Minha vida mudou!”

Anderson Augusto Messa, de 34 anos, frequentador do Daime desde 2001

O TRABALHO

O ritual é realizado duas vezes ao mês, geralmente nos dias 15 e 30. Segundo Marco Gracie Imperial, frequentador do Santo Daime há 40 anos, as datas têm uma explicação. “O intervalo serve para que as pessoas analisem o que fizeram nos 15 dias anteriores e se preparem para os próximos 15 que vem pela frente. É como se fosse um estudo”.

Dentro da doutrina existe o fardamento, algo como o batismo na igreja católica. Para os daimistas a farda tem um significado simbólico de iniciação na doutrina. O fardamento implica em aceitar seus deveres dentro da religião, afirmando assim sua fé num voto de acatamento espiritual. Os fardados precisam também participar com frequência dos trabalhos oficiais da igreja que frequentam. “Para fardar é preciso querer. Além disso, precisa participar de pelo menos 3 trabalhos e não tem idade mínima”, explica Marco.

AS FARDAS

A doutrina é da Virgem Maria, por isso as cores das fardas são azuis e brancas. Em algumas regiões do país, a farda é branca e verde, que é inspirada na natureza. A bandeira do Santo Daime tem essas três cores.

Nossa equipe acompanhou um trabalho do Santo Daime no Céu Sagrado

Os daimistas começam a chegar com suas fardas. Todos são gentis e os abraços e rodinhas de conversas começam a se formar logo no estacionamento. O salão já está todo preparado para receber mais de 400 pessoas por trabalho. Crianças, adolescentes, adultos e idosos participam ativamente. Muitos levam em seus braços cobertores e agasalhos. Os membros da banda já entram e começam a organizar um dos espaços mais importantes do ritual, já que todo o trabalho é realizado em torno de uma sequência de músicas, ou, como eles chamam, os hinários.

O trabalho do Céu Sagrado começa com todos em pé. Homens, mulheres e crianças sentam-se em lados opostos, como explica Flaviano, “É uma forma de equilibrar as polaridades”. Ao centro do salão está o Padrinho Luciano Dini em um altar que recebe flores, imagem da Virgem Maria, fotos dos Padrinhos Fernando e Luciano Dini, velas brancas e a cruz de caravaca, que tem um traço a mais, simbolizando a ressurreição de Cristo. Todos rezam três vezes a oração do Pai-Nosso e Ave-Maria. Após isso, o Padrinho abre o trabalho e informa que assim que a ayahuasca for consagrada, ninguém poderá sair do salão até que o trabalho termine.
Em filas organizadas, todos do salão devem tomar o chá ayahuasca, que agora, é o Daime, item indispensável na hora do trabalho. “Em princípio todos devem tomar o Daime nos trabalhos, mas não se pode obrigar ninguém. Para as crianças, a dose é mínima”, revela Flaviano Schneider, estudioso da doutrina.

HINÁRIOS

Os músicos começam a cantar e tocar o hinário que dura cerca de duas horas. Segundo Danielle Amorim, fardada e integrante da banda, o hinário de Maria do Damião, que foi o que cantaram quando nossa equipe visitou o trabalho, é um dos hinários que mais representa a origem do Santo Daime. “Algumas conjugações estão erradas, mas isso serve para canalizar as pessoas que vivem na mesma época de Mestre Irineu. São 49 hinos que variam entre valsa e marcha”.
A banda conta com sanfonas, pandeiros, chocalhos feitos de latinha e cabo rústico de madeira, violão, liras e tambores.

Durante o trabalho não é aconselhado levantar do seu lugar, pois o ritual demanda muita concentração. As pernas devem permanecer descruzadas e as mãos nos joelhos, se possível. Isso, segundo eles, ajuda o fluxo de energia. Durante o trabalho, cerca de dez fiscais ficam à disposição dos fiéis para apoio, desde pegar um copo d’água até ajudar quem possa passar mal.

Enquanto cantam o hinário algumas pessoas já demonstram efeitos do Daime. Na terceira fileira, um rapaz revirava os olhos e sorria enquanto cantava o hinário. Ele suava frio e reclamava para o fiscal, que lhe trouxe um cobertor. Ele se chama Eric Araújo de Oliveira, de 24 anos. “Quando eu consagro o Daime, eu começo a sentir a força, uma energia diferente dentro de mim e logo em seguida eu sinto a presença de Deus”. Ele conta que começou a frequentar o Céu Sagrado em outubro de 2016. “Eu estava passando por uma situação não muito boa na minha vida e acabei vindo. Posso dizer que melhorou 110%”. Sobre o chá, ele revela que cada trabalho é de um jeito. “Às vezes é doce, às vezes não tem gosto nenhum, às vezes é amargo… Depende do que a pessoa está passando”.

Quem toma o Daime passa por diversas reações. Algumas pessoas fecham fortemente os olhos e se comprimem. Nos fardados os efeitos são mais discretos, e a maioria ficava apenas com os olhos fechados. “A duração do efeito varia muito e depende das circunstâncias da dose, da necessidade e da decisão dos guias. Algumas pessoas levam cobertores nos trabalhos, pois o frio é comum, principalmente quando se atinge a dimensão da alma”, explica Flaviano Schneider, de 66 anos.

Durante todo o trabalho, Mário Galvão fica no banheiro masculino do salão. Ele está há 15 anos no Céu Sagrado e sua função é fiscalizar o banheiro e ajudar quem passa mal. “Quando eu cheguei aqui, tomava cinco litros de pinga por dia. Era muito triste”, confessa. “Depois do meu primeiro trabalho aqui, nunca mais bebi. Hoje eu trago conhecidos que precisam de ajuda. Muitos se curam e vão embora… Alguns vão, alguns ficam. Mas é muito bom. Gratificante!” completa pensativo.

A segunda dose do Daime é servida. Todos seguem em fila para o altar central, onde o Padrinho distribui a dose em um pequeno copo de plástico.

Um jovem rapaz não fardado que estava sentado na quarta fileira começa a ficar inquieto após ingerir o Daime. Ele passa a mão pelo seu rosto, começa a ter refluxos, fica com o olhar perdido e inclina o pescoço para trás.

Com o fim do hinário o Padrinho volta e propõe o momento de reflexão. Quando as luzes brancas do salão se apagam, o led azul predomina no ambiente. Neste momento, as reações são levadas à flor da pele.

É possível ouvir choros e murmúrios de orações. Algumas pessoas mexem as mãos como se estivessem conversando, os traços do rosto parecem estar confusos com algo que é dito, porém os olhos continuam fechados.

Foi neste momento que em fevereiro de 2015, a jornalista Danielle Amorim teve uma das revelações mais importantes de sua vida. Ela descobriu, através da reflexão do Daime, que estava grávida. “Foi a visão mais bonita que já tive… Senti na hora uma emoção muito forte!”

Durante o longo momento de reflexão muitas pessoas permanecem em silêncio com as mãos no joelho. Algumas pessoas passam mal e são retiradas do salão pelos fiscais. Durante esse momento de concentração, aumenta o número de pessoas pedindo água e cobertores. A reflexão dura cerca de uma hora. O salão não tem paredes, é revestido por vidros. Os jardins do lado de fora possuem uma luz verde, que realça a presença de uma floresta próxima dos fiéis. Um silêncio profundo toma conta do salão.

Aos poucos é possível ouvir o som emitido pelas caixas instaladas no teto. Sapos, grilos e uma música calma trazem de volta os daimistas. A miração, momento de reflexão, é longa e cada um tem um momento para que ela se encerre. As luzes se acendem novamente: é o fim do trabalho que durou cerca de 5 horas.

A mudança…

Nos 22 anos do Céu Sagrado centenas de milhares de pessoas passaram pelo centro. Muitas mudaram de vida e encontraram um novo propósito.

“Eu sempre fui cética. Não acreditava em nada e fugia de qualquer coisa que fosse ligada a religião. Minha vida era baseada em coisas materiais, eu precisava me reafirmar. Era gananciosa!”

É assim que a publicitária e empresária Bruna Desanuvio, de Sorocaba, se descreve antes de conhecer o Santo Daime.

Hoje com 26 anos, Bruna conta que perdeu os pais quando ainda era criança e sua vida sempre foi solitária. Quando cresceu, virou “uma adolescente revoltada” e mais tarde desenvolveu um quadro sério de depressão. “Eu buscava outras saídas… Ia às baladas todos os dias da semana, usava drogas pesadas”, afirma.

A primeira vez que Bruna foi ao Daime, em setembro de 2016, foi a convite de um amigo. “Ele percebeu que eu precisava de ajuda e logo no meu primeiro trabalho, abriu uma cortina na minha vida e eu pude enxergar um mundo novo que eu nem imaginava que existia.” Frequentar os trabalhos trouxe à publicitária um entendimento que ela nunca havia tido. “Entendi porque certas coisas não davam certo, o motivo de ter vivido algumas situações…”, afirma confiante.

Hoje, a Bruna do passado não existe mais. “Minha vida mudou. Minha saúde, fé, felicidade e esperança voltaram. Minhas prioridades são outras. Hoje meus planos e anseios têm propósitos e fundamentos”. Mas a publicitária, que passa dos 60 mil seguidores nas redes sociais, afirma que durante o trabalho a sensação é outra.

“Eu costumo falar que o Daime não me traz paz. Muito pelo contrário, o Daime me coloca de frente com os meus maiores medos, com os meus maiores demônios. Ele me coloca de frente pra tudo aquilo que eu evitava olhar. O Daime me dá trabalho, a paz que eu tenho com o Daime é depois que eu realizo o trabalho”.

Com um pouco mais de um ano na religião, Bruna considera que ainda há muito o que aprender, mas muitas lições já estão sendo tiradas desses meses de comprometimento. “Em um trabalho, aprendi uma lição que nunca esqueço: ‘Neste caminho o erro pode acontecer, esteja atento para com ele aprender, cada tropeço lhe ajuda a colher a sombra que ainda existe em você, pois se és o todo, é preciso compreender que o escuro também é parte de você’. Descobri que os erros, fraquezas e negatividades, também fazem parte de nós. A gente ‘faz as pazes’ com a nossa escuridão e passa a levar luz pra lá. É maravilhoso! Minha vida é outra!”

Mas nem tudo são flores…

Márcia Ailza Ignácio, de 42 anos, é veterinária e conheceu o Santo Daime em 2007. No mesmo ano, passou a frequentar o Céu Sagrado e se fardou. Após oito anos participando assiduamente, era considerada um dos pilares da maior igreja do Santo Daime no Brasil e do mundo. “Eu passei por diversas posições lá dentro. Fui fiscal, fiz trabalho social… Estava sempre lá, ajudando”, completa.

Mas, em 2015, percebeu que aquilo não era mais pra ela. “Em um dos meus últimos trabalhos de concentração eu me vi do lado de fora da igreja e não dentro… A decisão foi difícil pra mim. Eu sempre fui muito bem acolhida”. diz. “Foram problemas de qualquer doutrina religiosa. Além de não me sentir mais inserida, comecei a perceber que as pessoas eram classificadas lá dentro. Quem tinha mais dinheiro, era visto com melhores olhos”, lamenta.

Atualmente Márcia não frequenta nenhuma igreja, mas admite que alguns pontos da doutrina a incomodavam. “É muito machista… Algumas coisas mudaram, mas somente os homens podem se pronunciar. A função da mulher é só cantar e muitas não tocam certos instrumentos… Não só dentro do Céu Sagrado, mas em todas as igrejas em si”. Márcia ainda revela ter presenciado situações desconfortáveis com fiéis que eram gays. “Infelizmente já presenciei cenas de homofobia, comentários maldosos… Sempre de uma forma muito discreta, já que a doutrina não permite isso”.

O mesmo aconteceu com uma ex-fardada de 36 anos que prefere não se identificar. “Conheci o Santo Daime através do meu irmão em 2008”. Três anos depois ela se fardou, mas em 2012 decidiu deixar a doutrina. “Fechou o meu ciclo, não me via mais dentro da igreja, Também parei de frequentar por motivos de saúde, já que quando se tem certos problemas, não se pode tomar o Daime”, esclarece.

Sobre as afirmações feitas por Márcia Ailza Ignácio, Luciano Dini, Presidente do Céu Sagrado, afirmou que a separação por classes sociais não existe. “A maioria das pessoas que frequentam o Céu Sagrado são trabalhadores. Aqui todos são tratados da mesma forma”, disse. Quanto aos comentários homofóbicos, Luciano afirmou que muitos seguidores são gays e tratados sem distinção. “Não temos o menor preconceito, somos todos irmãos… Claro que fardados homossexuais já foram expulsos, mas por desobedecer as regras!”.

É comum as pessoas se apegarem a crenças religiosas quando se encontram em momentos difíceis em suas vidas. A busca pelo entendimento cansa e a fé torna-se a única maneira plausível de superar tal situação. Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Dante Pazzanese de São Paulo, a prática regular de atividades religiosas pode reduzir o risco de morte em 30%. Isso acontece porque seguir uma religião melhora o bem-estar psicológico, diminuindo os pensamentos negativos, o consumo de álcool e drogas e incentivando hábitos saudáveis.

Uma série de estudos surgiu em torno da ayahuasca como forma de tratamento para doenças como depressão na última década. O Santo Daime é uma doutrina que tem uma visão de cura muito presente em seus ensinamentos. Nos hinários, frases como “A cura vem para quem merecer” são comuns e os adeptos a religião afirmam que a cura não chega de uma hora para outra. A Igreja Céu Sagrado, oferece tratamentos alternativos com o uso da ayahuasca e a prática do kambô, para tratar de pacientes que procuram a cura de dependências químicas, alcoolismo, vícios e problemas de saúde no geral.

É preciso entender os ensinamentos do chá ayahuasca para poder se encontrar. “Aos poucos foi me libertando e muitas coisas foram clareando. Eu nunca mais fui a mesma pessoa desde o primeiro ritual”, afirma Gisele Ferrari, que hoje toma o Daime somente uma vez por ano. “Só para tirar aquele peso nas costas quando tenho”.

Cristina Profetto saiu da Argentina no ano de 1989 rumo à Amazônia para se curar de um câncer entre o útero e o ovário através do Santo Daime. “Fiz de mim um laboratório de cura. Estava com 33 anos e 33 quilos. Do meu peito saia sangue e eu menstruava vinte dias direto… Quase sem cabelos, não por quimioterapia, porque nunca usei, mas por fraqueza”, relata. A proposta de cura veio de um amigo que tinha acabado de chegar da Índia. A viagem até a Amazônia levou 40 dias. “Foi realmente uma grande aventura, pena que pouco podia curtir por causa da enfermidade, mesmo assim nunca esqueci tantas maravilhas que pude apreciar”, relembra.

Depois de muito caminhar ela chegou na colônia Cinco Mil, no estado do Acre. Eles carregaram, durante a viagem, mochilas pesadas com sal em pedra e até uma vassoura para limpar as calçadas de onde dormiram. Segundo Cristina, na chegada a emoção foi tanta que desmaiou e seu esposo teve que carregá-la para dentro da colônia, onde foi apresentada ao Padrinho Wilson Carneiro, que havia recebido direto do Mestre a zeladoria e chefia dos trabalhos de cura. “Então cai direto no Daime. Tomei muito, um copo cheio, me transportei e fui parar em um jardim, ali minha mãe soberana me balançou e estava cheia de rosas… Tive todas as mirações possíveis. Perdi o medo, mas o tumor não saia do lugar”, conta.

De acordo com Cristina, depois de muitos trabalhos, o povo não acreditava que ela iria conseguir sobreviver ao tratamento. “Em um desses trabalhos de cura recebi minha operação em plano espiritual e fui curada. Escutei uma voz no meu ouvido dizendo para que eu prestasse atenção nos hinos que estavam sendo cantados na sala, mas me senti como se estivesse em uma cama de hospital. Logo senti como se prendessem meus braços e pernas, olhei em volta e estava em um salão azul, moderno e lindo. Vi uma equipe de pessoas altas e vestidas de branco e no mesmo momento senti como se fosse um bisturi arrancando o tumor, como se fosse uma extração de dentes. Ao lado direito vi uma asa branca e dourada de uma águia… E assim foi…”, explica Cristina. “Depois desse dia nunca mais tive nenhuma manifestação do câncer”, afirma aliviada.

A procura pela cura acontece até mesmo para os animais. Como é o caso do animal de estimação do cineasta e professor Marcelo Marques. “Meu gato tinha suspeita de um linfoma. Para fazer exame era caro e minha namorada é veterinária, então ela preferiu fazer um tratamento alternativo”, conta Marcelo. “Ela fez tratamento com cromoterapia, o gato estava bem abatido e só ficava deitado o dia inteiro, sem força, no corredor da morte”, relembra. “Juntamente com a cromoterapia, nós demos a ayahuasca na forma de floral pra ele em um conta-gotas. Eram, em média, oito gotas de ayahuasca por dia durante duas semanas e ele foi melhorando até ficar ótimo!”.

Marcelo afirma que ele e a namorada não fizeram nenhum exame para confirmar se realmente o animal sofria com um linfoma e se foi efetivamente curado, mas desde então o animal está saudável e feliz.

A CLÍNICA DE TRATAMENTO

Em Sorocaba, funciona a clínica de tratamento do Céu Sagrado. Ela foi criada na mesma época que a igreja, mas em espaços diferentes. O atendimento é feito duas vezes por semana, não é tolerado atraso e tem a autorização da vigilância sanitária. “Nós começamos no horário, se você perceber que vai atrasar, nem venha, senão vai perder a viagem”, disse Luciano Dini, Presidente do Céu Sagrado e Coordenador da clínica, para um paciente que viria de Minas Gerais e estava ao telefone tirando dúvidas sobre o tratamento.

Os tratamentos são oferecidos gratuitamente. E mesmo sem divulgação em qualquer meio de comunicação ou até mesmo fachada na entrada do local, a procura pela libertação dos problemas faz com que a clínica atenda em torno de sete pessoas por dia. “Tem pessoas que chegam aqui e estão há 10 anos nas drogas e com uma dose de Daime saem curadas. De 5 pessoas que tomam o Daime aqui, quatro se curam. Aquela uma pessoa que não se curou é porque veio com pouca fé”, conta Luciano Dini.

Para identificar qual o problema o paciente apresenta, é feita uma orientação por um dos voluntários, que dura em torno de 15 minutos. “Na primeira conversa a gente já consegue sentir se aquela pessoa quer mesmo mudar ou não”, confessa Júlio Cezar Andrade do Nascimento, autorizado a aplicar o kambô e voluntário na clínica há 5 anos. O tratamento atende duas pessoas por vez, para facilitar a concentração e deixar o paciente seguro, pois muitos nunca tiveram nenhum contato com esse tipo de terapia antes.

ESTUDOS ENVOLVENDO A AYAHUASCA

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente 5,8% dos brasileiros sofrem de depressão. A doença que atinge 11,5 milhões da população brasileira é considerada o mal do século XXI, pois o número de pessoas diagnosticadas com graus de depressão aumenta todos os dias e segundo uma pesquisa da IMS Health, a venda de antidepressivos cresceu 18,2% no Brasil em 2016. Dentro dessa porcentagem, as mulheres são as que mais sofrem com a depressão. No caso de uma paciente que não quis se identificar, a depressão se apresentou depois do parto de uma gravidez planejada e desejada. “Foram dois anos de muitas medicações e recaídas, crises de pânico, ansiedade e depressão… Até conhecer o Daime na igreja”, conta. “Foi um trabalho sofrido, teve choro, limpeza, uma sensação de quase morte, cansaço físico e mental e finalmente o alívio. Coincidência ou não, depois daquele dia não mais tomei medicação e nem precisei”, relata.

Um estudo sobre os efeitos da ayahuasca em pacientes com depressão foi iniciado em 2007, com coordenação de Draulio Barros de Araújo, professor titular do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e continua em andamento. Segundo Draulio, os efeitos foram significativos. “A gente observou que dias depois da experiência com a ayahuasca já existe um efeito significativo de redução dos sintomas de depressão e esses sintomas permanecem reduzidos por 7 dias”, relata. A segunda fase desse mesmo estudo teve início em 2010 e serviu para comparar os efeitos da ayahuasca com os efeitos do placebo, que não tem nenhuma propriedade farmacológica, nos pacientes com depressão. “O placebo também demonstrou uma redução dos sintomas de depressão, mas a redução que foi proporcionada pela ayahuasca foi maior”, explica o professor.

Em 2015, outro estudo avaliou os efeitos da ayahuasca em pacientes com quadro de depressão. O trabalho foi noticiado na prestigiada revista Nature. Os pesquisadores Flávia de Lima Osório, docente do departamento de neurociências e ciências do comportamento da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, e Rafael Guimarães dos Santos, pós doutorando no mesmo departamento, dizem que os resultados obtidos até agora são positivos. “As pessoas que participaram do estudo tiveram uma redução temporária em seus sintomas de depressão, mas o fato de ter sido apenas uma melhora temporária mostra que devemos seguir pesquisando”, afirma Rafael que está planejando um estudo sobre os efeitos da ayahuasca em pacientes alcoólatras. Mesmo com efeitos positivos, Rafael e Flávia afirmam que a ayahuasca não cura a depressão. “O que observamos foi apenas a redução dos sintomas de depressão por 2-3 semanas após a ingestão de uma dose de ayahuasca. Os sintomas retornaram após este tempo”, explicam.

Mesmo sem um estudo comprovando os benefícios da ayahuasca para pessoas alcoólatras, muitos dependentes do álcool afirmam ter se curado do vício depois de ter tomado o chá ayahuasca ou ter entrado para a religião do Santo Daime. “Eu bebia todos os dias. Mas graças ao padrinho Luciano e ao Santo Daime eu me libertei desse mal. Tomei o Daime na clínica de tratamento do Céu Sagrado e depois daquele dia nunca mais bebi”, conta Silvano Vital.

O SAPO
QUE TROUXE
A CURA

O kambô, ou simplesmente vacina do sapo, é um método da medicina indígena, que utiliza a secreção de uma perereca em seu ritual de cura. Encontrada em países com áreas amazônicas, como o Brasil, Bolívia, Colômbia, Guiana, Peru e Venezuela, a perereca de cor verde brilhante é colocada como responsável por curar dores de cabeça, cansaço e até câncer.

Segundo uma lenda da tribo Kaxinawá, há milhares de anos os índios da aldeia estavam muito doentes, então o pajé Kampu entrou na floresta e disse que só sairia de lá com a cura para o seu povo. Sob o efeito da ayahuasca, ele recebeu a visita do grande Deus que segurava nas mãos uma rã e ensinou o que Kampu deveria fazer para salvar a sua tribo. O pajé então voltou para sua tribo e aplicou o veneno em seu povo. Todos foram salvos. Os índios acreditam que o kambô é uma maneira de se conectar com a natureza. Através dele, os chacras se abrem e fazem a energia do corpo circular normalmente, fazendo com que as dores e os males desapareçam.

CURIOSIDADES SOBRE O KAMBÔ

Phyllomedusa Bicolor

É a maior perereca de sua espécie, podendo chegar a até 11,8 cm.

Pesa em torno de 50g.

Tem hábitos noturnos e passa a maior parte do dia parada.

A secreção que é usada para prática do kambô é a forma com que essa espécie se hidrata.

O intervalo para retirar o veneno da mesma perereca é de no mínimo 6 meses.

Ela não sobrevive fora da Amazônia.

Para retirar o veneno, os índios amarram as quatro patas da perereca e a esticam entre duas estacas de madeiras para que ela fique imóvel durante a retirada. O Pajé raspa levemente as costas da perereca para retirar a secreção e em seguida os índios a devolvem para a mata. O veneno é colocado em uma palheta de madeira, onde ele ficará cristalizado depois de algumas horas. Por conta desse efeito, pode durar muitos anos. As placas são encaminhadas para diversas clínicas do Brasil todo, entre elas a clínica do Céu Sagrado.
Antes da aplicação, a secreção é umidificada com água natural para poder voltar ao seu estado pastoso e então são moldadas bolinhas com o veneno, que em seguida serão aplicadas nos pacientes através de queimaduras feitas com um pequeno cipó na pele. Assim, o veneno entra na corrente sanguínea de forma instantânea e o processo tem a duração média de 20 minutos.
Nos primeiros 5 minutos você acha que vai morrer. Nos próximos 10 minutos você tem certeza (Risos), mas logo em seguida você já volta ao normal
Luciano Dini

As pesquisas para descobrir as propriedades farmacológicas presentes no kambô continuam. Segundo Sandro Dini, sobrinho do Padrinho Luciano, médico gastroenterologista e pesquisador do kambô, pessoas que sofrem de doenças como a depressão, ansiedade, transtornos compulsivos, enxaquecas e também sedentarismo e obesidade podem se beneficiar. “Sabemos que o kambô, além de tudo, é excelente para todas essas condições, o que vêm tornando seu uso cada vez mais frequente e popular, com ótimos resultados e retorno imediato às atividades do cotidiano”, afirma.


Pesquisadores encontraram na secreção do kambô propriedades antimicrobianas, com potencial para o combate das superbactérias, as bactérias que resistem a antibióticos, além de substâncias que estimulam a cicatrização de feridas e outras que funcionam como analgésicos considerados 40 vezes mais potentes que endorfinas.

“Tinha enxaqueca pelo menos duas, três vezes no ano, eu chegava a desmaiar, algumas horas a minha vista sumia. Fui no médico diversas vezes e ele não sabia o que era, me passava um remédio, mas só parava a dor na hora. Depois da primeira vez que eu apliquei o kambô eu fiquei dois anos sem ter uma dor de cabeça”, relatou Cristiano Borges da Silva Júnior, que já aplicou o kambô três vezes nos últimos três anos.

Os índios acreditam que o kambô tira o cansaço e com isso se tornam mais valentes e fortes. Para os urbanos existem variações de quantidade do veneno aplicado quando comparado com os índios, mas os motivos da procura são parecidos.

“Procurei porque me falaram que fortalecia a imunidade e tirava o cansaço. Bem o que estava precisando”, conta Esthefani Oliveira, frequentadora da igreja Céu da Nova Vida há 2 anos.

No ano de 2004 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, proibiu a venda e a publicidade sobre o kambô. A agência alega que ainda não existe comprovação científica que garanta qualidade, segurança e eficácia da substância encontrada na perereca. “O fato de ser gratuito nos protege, se estivéssemos lucrando com isso, iriam cair em cima da gente”, explica Júlio.

A proibição se deu por denúncias feitas pelos índios alegando que pessoas, de centros urbanos, estavam utilizando tribos próximas para aprender como fazer a aplicação do kambô e comercializando as paletas de madeira que continham a secreção. Devido à isso, em junho de 2005 os índios Katukina acusaram que aplicadores de kambô residentes em Cruzeiro do Sul (AC) estariam usando o sapo-cururu no lugar do kambô, o que seria muito perigoso.

Desde então, todas as denúncias sobre biopirataria são avaliadas pela Polícia Federal do Acre e, para ajudar no reconhecimento da vacina, a Empresa Brasileira de Pesquisas e Agropecuária (Embrapa) criou um método de reconhecimento através de estudos para facilitar esse processo.

É possível encontrar milhares de relatos de pessoas que se curaram de diversas doenças depois de aplicarem o kambô. Existem, inclusive, pessoas que estacionaram câncer, Aids e tendinite crônica, como é o caso de uma personagem que não quis se identificar. “Para tendinite tomei 3 doses, 1 por semana. Foi tirar com a mão”, conta.

Mesmo concordando com o poder de cura instituído pelo kambô, Sandro Dini acredita que o acompanhamento médico deve ser contínuo em alguns casos. “Pessoalmente não acredito no imediatismo da cura física de doenças graves e reconhecidamente incuráveis como enfisemas, cirroses, cânceres em estágio avançado etc. Quem disser que cura, está sendo imprudente. Todos os pacientes submetidos a quaisquer tratamentos médicos não convencionais devem permanecer sobre estrito acompanhamento de um médico ou outro profissional da saúde habilitado para o caso”, afirma.

ANA GASPAROTTO

Repórter e editora

Entre em contato através do e-mail contato@adoutrindadafloresta.com.br 

Sou umbandista há três anos. Há um não sabia da existência da religião Santo Daime ou da utilização do chá Ayahuasca em trabalhos religiosos.

Foi transformador. Me vi completamente mergulhada em um universo místico e espiritual maravilhoso. Entender a ayahuasca como substância me fez ver que a mente tem um poder muito maior do que imaginava e que a fé realmente é capaz de mover barreiras.

Ainda que eu prefira rituais xamânicos em vez da doutrina do Santo Daime, acredito que quando você abre a mente e o coração para novas ideias, a vida ganha novos sentidos.

BRENDA PROCÓPIO

Repórter e produtora

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Fazer parte desse projeto foi de extrema importância para o meu crescimento pessoal, pois através dessa experiência eu conheci pessoas e histórias que mudaram o meu pensamento sobre o Santo Daime e sobre a fé como um todo. Durante esse ano estive mergulhada dentro do universo de cura do Santo Daime, já que escrevi sobre o quarto capítulo deste site.

Conversei com diversas pessoas que passaram por experiências que eu nunca imaginei. Pessoas que se curaram de doenças sem cura, outras que estavam há 10 anos no mundo das drogas e conseguiram se curar do vício através da doutrina. Eu sou católica e trabalho com a juventude dentro da igreja e o Santo Daime era uma realidade muito distante para mim. Mas hoje, depois de tantos relatos e pesquisas, me sinto mais próxima da doutrina e a respeito com muito carinho.

DEBORAH DOS SANTOS

Repórter e financeiro

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Iniciei o trabalho referente ao Santo Daime no início do ano e jamais poderia imaginar a experiência que o projeto agregaria em minha vida. Por se tratar de um assunto novo e pelo qual eu sabia o mínimo de informações possíveis, sempre tive a clareza de que eu precisaria de muito esforço e muita pesquisa para alcançar o resultado que um grande trabalho merece. Após finalizar sei que todo o meu esforço somado a dedicação dos meus colegas resultou em uma grande reportagem de muita qualidade.

Com o projeto eu pude aprender ouvindo de pesquisadores, médicos, adeptos e tudo aquilo que o chá tem a oferecer aos seus fiéis. Entendi também o motivo pelo qual o uso do mesmo é tão complexo e consequentemente tão polêmico. A oportunidade de pesquisar sobre a religião me abriu um leque de questionamentos sobre a forma em que muitas vezes somos fadados a julgar algo que não faça parte dos nossos costumes e que o medo do novo nos impossibilita de adquirir uma série de conhecimentos valiosos. A grande reportagem “Santo Daime – A Doutrina da Floresta” é um projeto idealizado com todo o respeito que uma religião merece e pessoalmente espero que o trabalho consiga transmitir todo o esforço e dedicação que atribuímos ao longo de um ano de pesquisa.

LETÍCIA RODRIGUES

Repórter, cinegrafista e editora de vídeo

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Fui responsável pela parte inicial da reportagem, onde abordei a história e a expansão do Santo Daime. Desde que entrei na faculdade, tenho vontade de me especializar em alguma área que tenha relação com ciências sociais, história ou antropologia. Concluir jornalismo produzindo uma grande reportagem abordando a história de uma religião nascida no coração do Brasil, em meio a Amazônia, vai de encontro com as áreas de estudo que pretendo seguir.

Não sigo nenhuma religião, no entanto acho importante entender as crenças e como elas vão de encontro com a cultura de determinado local. O Santo Daime tem tudo a ver com o Acre, com a Amazônia, com o Brasil. É uma mistura de elementos brasileiros, mistura essa que hoje está presente em variados lugares do mundo, levando um pouco da nossa Amazônia para outros países. E a sua origem veio de um típico brasileiro, homem trabalhador e seringueiro, negro e neto de escravos, que nunca desistiu e achou na ayahuasca a sua redenção.

MATHEUS FAZOLIN

Repórter e editor-chefe

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Conheci alguns seguidores do Santo Daime em 2015 e sempre me chamou à atenção o modo como eles descreviam a doutrina: com muito amor e fidelidade. Era nítido que, seja lá o que eles faziam nos trabalhos e feitios do Daime, havia uma grande mudança em suas vidas. Até então, não tinha conhecimento aprofundado sobre a doutrina, mas a fé das pessoas sempre me aguçou curiosidade.

Agora, em 2017, escrevi o terceiro capítulo deste site, que fala sobre o trabalho ritualístico do Santo Daime. Escrever sobre isso foi um desafio, pois diferente de todas as religiões, o Santo Daime tem uma linha tênue entre a fé e a ciência, por conta da ayahuasca e suas substâncias. Acompanhar um trabalho de mais de cinco horas observando tudo e analisando reações foi uma experiência mística, nova e marcante. Neste processo, conheci pessoas, líderes e histórias que jamais vou esquecer.